Há um momento, ainda durante as férias, em que começamos a perceber que o regresso está próximo. Ainda estamos a aproveitar os últimos dias, mas a nossa cabeça já começa a antecipar… A caixa de email cheia, as reuniões já agendadas, os horários mais exigentes, as responsabilidades acrescidas e tudo aquilo que ficou pendente e está lá, à nossa espera.
E, se de repente, o descanso deixa de ser apenas descanso e começamos a sentir alguma angústia, ansiedade, irritabilidade, tristeza ou até uma vontade quase infantil de adiar o inevitável, é importante percebermos que não há nada de errado nisso.
Regressar ao trabalho é uma transição. E todas as transições implicam algum movimento emocional. E esse movimento é diferente em cada pessoa.
Durante as férias, afastamo-nos das rotinas, das exigências e dos horários. Recuperamos outros ritmos, passamos mais tempo com quem gostamos, fazemos coisas que durante o ano ficam adiadas. O nosso corpo e a nossa mente habituam-se, ainda que temporariamente, a uma outra forma de estar, uma outra forma de bem-estar.
Por isso, não podemos esperar que, na manhã do primeiro dia, tudo se reorganize magicamente.
Podemos gostar muito do nosso trabalho e, ainda assim, sentirmos dificuldade em regressar. Podemos sentir realização profissional e, simultaneamente, tristeza por deixar os dias de descanso. Podemos estar gratos pelo trabalho que temos e desejar, por momentos, que as férias durassem mais uma semana e mais uma…
As emoções não precisam de ser coerentes para serem legítimas.
Talvez por isso o regresso não devesse ser encarado como uma corrida para recuperar imediatamente o ritmo. Talvez precise de ser vivido como um período de adaptação e pode ser também uma oportunidade para escutarmos aquilo que sentimos.
Se regressar nos deixa apenas um pouco nostálgicos, talvez seja simplesmente a dificuldade natural de deixar para trás algo de que gostámos e nos fez sentir bem.
Mas se o regresso desperta uma angústia intensa, um cansaço profundo ou uma sensação persistente de não querer voltar àquele lugar, talvez valha a pena parar e perguntar: o que é que este mal-estar me está a dizer?
Pode ser o excesso de trabalho, a dificuldade em estabelecer limites, a pressão constante, a falta de reconhecimento, a existência de um ambiente profissional que nos desgasta ou simplesmente a sensação de que estamos há demasiado tempo a viver em modo de sobrevivência. Se assim for, o regresso pode, então, ser mais do que o fim das férias. Pode ser um momento de consciência e tomada de decisão.
É importante que o regresso seja acompanhado de atenção ao que sentimos porque cuidar da nossa saúde emocional também passa por isto… não exigir que a nossa mente acompanhe imediatamente o calendário. O primeiro dia pode ser apenas o primeiro dia e o ritmo há de voltar ao nosso próprio ritmo.
Que este momento não seja visto como uma perda, mas como a oportunidade perfeita para desenhar uma rotina mais equilibrada e com mais espaço para si.

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