Há uma idade em que nos olhamos ao espelho e já não sabemos muito bem quem nos devolve o olhar.

Quando somos crianças, somos inteiros, completos. Rimos sem parar, choramos sem pedir licença, queremos sem nos envergonharmos do querer. Depois, pouco a pouco, aprendemos as regras do mundo: agradar, pertencer, ser aceite.
E entretanto, já aprendemos a baixar a voz quando a nossa verdade era demasiado alta, a sorrir quando havia medo, a dizer sim quando dentro de nós algo gritava um não, e a chorar em silêncio, porque é sinal de fraqueza.

E assim construímos camuflagens. Personas. Máscaras tão perfeitas que, com o tempo, são confundidas com o próprio rosto, com o próprio ser.

Vivemos anos a interpretar-nos a nós próprios. Somos o profissional competente, o filho responsável, o amigo disponível, o parceiro paciente, a pessoa que não cria problemas. Somos tantos papéis que, por vezes, nos esquecemos de quem estava lá antes de todos eles.

Mas um dia, talvez numa estrada vazia, numa madrugada de insónia, perante uma fotografia antiga ou ao ouvir uma conversa qualquer na rádio, sentimos um vazio estranho. Não porque falta alguma coisa, mas porque sobra demasiado do que nunca fomos verdadeiramente.

Chamam-lhe, por vezes, crise de meia-idade. Como se fosse uma avaria. Mas talvez não seja uma avaria, talvez possa ser um despertar.

A meia-idade pode ser o momento em que o corpo, o tempo e a alma começam a fazer perguntas incómodas: Isto é mesmo a minha vida? Quem sou? Quem escolhi ser? Quem estava a tentar agradar quando abdiquei de mim? Não é necessariamente uma rutura, nem uma tragédia. É, muitas vezes, um chamamento discreto. Um convite para voltar.

E voltar, não significa regressar à infância, nem recuperar uma versão idealizada de nós. Significa reconhecer o que sobreviveu debaixo de todas aquelas camadas: a curiosidade, a sensibilidade, a rebeldia serena, o gosto por certas músicas, certos silêncios, certas formas de estar no mundo. Significa olhar para as máscaras sem as odiar, porque elas também nos protegeram e tiveram um papel muito importante, mas podemos perguntar-lhes, com carinho… Ainda precisas de mim?

Talvez a meia-idade seja isso… a idade em que deixamos de querer ser vistos como esperam que sejamos e começamos, lentamente, a querer ser reconhecidos por aquilo que somos. Não uma versão melhorada para exibir, mas uma versão mais honesta para habitar.

Há quem atravesse este período com medo. É compreensível. Desfazer-se de identidades construídas dá medo. Mas há também uma liberdade estranha em admitir que já não sabemos tudo, que já não precisamos de provar tanto, que podemos recomeçar sem ter de justificar o recomeço.

E se a essência não for algo que perdemos para sempre, mas algo que fica ali, paciente, à espera que a voltemos a encontrar?

Voltar à essência…
Talvez não seja afastarmo-nos de quem fomos.
Talvez seja, afinal, encontrar o caminho de volta àquilo que somos.

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