Dia Europeu da Depressão
E talvez uma das coisas mais importantes que possamos fazer neste dia seja parar.
Parar para olhar. Para escutar. Para perguntar, não apenas aos outros, mas também a nós próprios: Como estou, verdadeiramente?
A depressão não escolhe idade, profissão, género ou condição social. Pode surgir na infância, na adolescência, na vida adulta ou na velhice. Pode encontrar espaço em momentos de perda, de mudança, de exaustão, de solidão… ou simplesmente aparecer sem que consigamos compreender nem explicar exatamente porquê.
E há uma parte particularmente preocupante: a depressão nem sempre se vê.
Há quem deixe de sair da cama. Mas há também quem se levante todos os dias, vá trabalhar, cuide dos filhos, responda a mensagens, cumpra horários, sorria, seja produtivo e diga que está tudo bem.
Há quem chore. Mas também há quem sorria, ria e continue a viver como se nada se passasse. Há quem aprenda a disfarçar tão bem a dor que o sofrimento acaba por passar despercebido, escondido atrás de um sorriso e de uma vida aparentemente normal.
Por fora, tudo funciona. Por dentro, tenta-se sobreviver.
Falamos, nestes casos, de depressão funcional. Pessoas que conseguem manter as suas responsabilidades e o seu funcionamento diário, mas que carregam um sofrimento psicológico significativo. E talvez seja precisamente por isso que passam despercebidas aos outros e, por vezes, até a si próprias.
“Não tenho razões para estar assim. Há pessoas com problemas muito maiores do que os meus. Eu tenho de conseguir sair disto sozinha. É só uma fase. Quando tiver menos trabalho, isto passa.”
Quantas vezes usamos estas frases para silenciar aquilo que sentimos?
Portugal enfrenta uma realidade preocupante no que diz respeito à saúde mental e esta preocupação atravessa gerações. Está nas crianças e nos adolescentes, nos jovens, nos adultos e também nos mais velhos. Esta semana, os dados divulgados voltaram a colocar esta realidade diante dos nossos olhos. Mas por detrás dos números existem pessoas. Pessoas que sofrem. Pessoas que se sentem sozinhas. Pessoas que não sabem descrever e outras que aprenderam a esconder tão bem aquilo que sentem que ninguém imagina o peso que carregam.
Por isso, falar de depressão é também falar de escuta, de presença e de ausência de julgamento. É perceber que nem sempre quem mais precisa de ajuda é quem mais pede. E é compreender que procurar ajuda não é um sinal de fraqueza. É um ato de cuidado.
A Psicologia pode ser esse espaço onde, finalmente, não é preciso fingir que está tudo bem. A terapia não apaga magicamente a dor, mas oferece um espaço seguro para compreender o que estamos a sentir, reconhecer padrões, dar nome ao sofrimento, construir recursos internos e encontrar novas formas de lidar com aquilo que, sozinhos, pode parecer impossível de suportar.
Hoje, mais do que falar apenas sobre depressão, gostava de deixar algumas perguntas:
Como tem estado a sua vida emocional?
Tem vivido ou apenas funcionado?
Tem espaço para sentir ou passa a maior parte do tempo a tentar aguentar?
Tem dito “estou bem” quando, na verdade, não está?
Tem reconhecido em si sinais que talvez esteja a desvalorizar?
E se, ao ler isto, alguma coisa dentro de si respondeu silenciosamente “se calhar não estou bem”, talvez seja importante escutar essa resposta. Não é preciso chegar ao limite para pedir ajuda. Não é preciso ter uma depressão grave para procurar um profissional de saúde. Não é preciso justificar o sofrimento para merecer cuidado.
Às vezes, o primeiro passo para começar a ficar melhor é simplesmente admitir: “não estou bem e preciso de ajuda”.
Que este dia nos lembre disso. Que olhemos mais para além dos sorrisos, da produtividade e do está tudo bem. Que aprendamos a perguntar e, sobretudo, a permanecer disponíveis para ouvir a resposta.
Porque há sofrimentos que não fazem barulho. Mas isso não significa que doam menos.
